Tropeirismo

História – O porquê, o quando, o como e o onde

A partir da chegada dos espanhóis na Cordilheira dos Andes e a identificação do monumental volume de minerais preciosos, ocorre o início de um fenômeno sócio-econômico com repercussão em toda América Latina – o Tropeirismo. Era o século XVII e o envolvimento atinge também o Brasil.

tropeirismo    Simultaneamente os portugueses chegam ao Brasil com os mesmos objetivos dos espanhóis. Após um século no litoral resolvem ir atrás do ouro.
Lá, como aqui, na primeira fase, a chegada dos desconhecidos foi recebida com perplexidade e medo. Os locais dominados “colaboram” com os invasores e, através do porto de Cartagena das Índias, encaminharam para a Europa prata, ouro, pedras preciosas, estanho; enfim, enormes riquezas. Contudo, aqueles espanhóis enfrentaram, em pleno Oceano Atlântico, piratas e corsários, ingleses e franceses, ocorrendo combates e muitas vezes, naufrágios, ocasiões em que a valorizada carga era perdida.
Com o tropeirismo avançando em toda a América Latina, ocorre novo encontro histórico entre espanhóis e portugueses, ampliando a soma dos usos e costumes entre os dois povos, incorporando hábitos indígenas e, mais tarde, os dos africanos.
Vive-se mais uma vez uma situação de conflitos. A força dos ibéricos contra os recursos dos habitantes da América Latina – que não conheceram armas de fogo. Para os indígenas, todos os elementos da natureza eram dádivas divinas que deveriam ser protegidas e respeitadas. Para os europeus isso não fazia sentido.
Os habitantes da América logo desistiram de colaborar com os visitantes, ainda que escravizados e, como o volume de minerais era enorme, os espanhóis traziam nos porões dos seus navios burros e mulas para execução dos trabalhos. Este é o início do Tropeirismo Latino. Interessante que a reserva do mercado de produção dos jumentos e éguas continuava sendo mantida na Europa.
O produto híbrido vinha para prestar os serviços de transporte para o grande e acidentado trecho da Cordilheira dos Andes.
Com o crescimento acelerado do volume de negócios, os espanhóis resolveram implantar um criatório de muares da América Latina.
Neste trecho, compreendido pelos pampas, uma vasta planície localizada entre o Uruguai e o Rio Grande do Sul (Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil), nasce a região missioneira, onde uma parceira entre jesuítas e índios guarani se frutifica. A docilidade dos animais, a topografia, a dedicação e a seriedade dos padres e índios permite o sucesso.
Da região missioneira, os animais eram encaminhados para a cidade de Salto na Argentina – ao pé da Cordilheira dos Andes, guiados pelos “troperos” que os negociavam em feiras – as primeiras da América.
Os muares são animais resultantes dos cruzamento de jumentos com éguas, e são estéreis. No entanto, são facilmente domados, únicos perfeitamente habilitados a realizar o transporte de cargas em regiões serranas, rodeadas de abismos e florestas, montanhas e de solos áridos. De pouca exigência na alimentação, conviviam – notável saga – com nevascas, ventanias e toda a hostilidade da natureza.
Perto do ano de 1693, as primeiras minas de ouro foram descobertas no estado de Minas Gerais. Houve uma corrida desordenada rumo à região – que prometia fortunas -, o que desencadeou a escassez de alimentos, a falta de meios de transporte e as precárias condições de subsistência.
O ciclo do ouro estava em fase inicial e com ele o fenômeno do Tropeirismo, atividade que determinou o povoamento de desde o extremo sul até o norte do Brasil.
Uniu territórios; conduziu o gado; escoou a produção econômica. Criou a identidade brasileira – fruto da miscigenação de raças, culturas, crenças e tradições -, entre indígenas, africanos e europeus.
Era preciso fazer chegar esse gado às Minas Gerais a fim de diminuir a distância entre as cidades e minimizar as crises de abastecimento, tornando possível o envio das mais diversas espécies de sortimentos; trazer do litoral até as minas os produtos necessários para os mineradores e enviar para o litoral o ouro por eles extraído; por fim, dar continuidade ao inevitável progresso.
Em 1733, o coronel português, Cristóvão Pereira de Abreu, partiu por conta própria – depois de em vão pedir apoio aos governos de São Paulo e Curitiba -, traçou e percorreu com sua tropa aproximadamente 1.500 km, o caminho que veio a ser conhecido como Caminho do Viamão, que saía dos Campos de Viamão (RS) e ligava Curitiba a Sorocaba. “Estrada Real”, Estrada das Tropas”, “Estrada do Sul”, “Estrada do Viamão-Sorocaba”, “Estrada do Sertão” e “Estrada da Mata”, também foram denominações dadas à estrada do Viamão.
Neste trajeto a tropa construiu mais de 200 pontes, levou mais de 2000 animais e fez de Sorocaba mais do que uma parada obrigatória para descanso de homens e animais; transformou Sorocaba no principal centro mercador de tropas do estado de São Paulo.
Tamanho foi seu crescimento e importância, que o Estado criou um Registro Fiscal a fim de controlar o número de animais e poder aplicar impostos sobre os mesmos.
O caminho integrou o extremo sul ao centro de Brasil e, por conseguinte, ao domínio português, visto que o território sulino, até então, estava sob posse espanhola. Foi por mais de dois séculos a grande estrada do Brasil nos tempos coloniais, por onde seguiram mulas e cavalos, suprimentos e correspondências, mas também e principalmente, homes e coragem.
Durante anos o País dependeu economicamente do caminho do Viamão. Os animais trouxeram a prosperidade e a riqueza, principalmente para os gaúchos que se dedicavam à sua criação.
Enriqueceram também os grandes homens das tropas, que por vezes iniciavam com dois ou três animais e ao longo do tempo acabavam por montar sua própria tropa com mais de 250 mulas, tornando-se ilustres e abastados donos de terras.
Todos se beneficiavam com a passagem das tropas cargueiras. Os ranchos surgiam e ao seu redor o comércio se formava, dando origem a vilas e povoados. Era preciso receber e alimentar tanto os animais quanto os tropeiros.
“Rebentou a feira” foi o esperado grito partido de Sorocaba. Por séculos o comportamento ecoava por toda a região em desenvolvimento no Brasil. Milhares de brasileiros dirigiam-se anualmente para Sorocaba a fim de adquirirem animais, arreamentos, armas, roupas e quantas quinquilharias oferecessem. “Breganhas, patacas e o dinheiro rolava”. Enquanto havia animais para leilão, a feira continuava. Durante o dia tratava-se das mulas dando-lhes milho e sal para comer, cuidava-se do comércio, das selas, das cangalhas e dos arreios, e à noite as festas aconteciam; tinha cantoria, dança, jogo de truco e um bom papo recheado de “causos”.
Quando tudo diminuía, era preparar as pensões e ampliar as produções para a próxima feira, a cada ano maior e mais dinâmica; acontecia ao final de março até junho/julho. Ir até Sorocaba foi uma epopéia monumental para tropeiros mineiros, vale-paraibanos, fluminenses, capixabas, baianos, cuiabanos, goianos. Muitos repetiam, anualmente, a ousadia, contribuindo assim para a viabilização dos ciclos do ouro, da cana e do café. Estava sendo feita a História do Brasil.
Diversos fatores fizeram de Sorocaba uma das principais cidades, senão a principal delas, nesse contexto econômico do Brasil colonial.
Sorocaba possuía um vasto território – uma planície denominada de Campo Largo de Sorocaba -, capaz de abrigar, para que pastassem, todo o gado que ali chegasse; era passagem obrigatória para se atingir os mercados consumidores que se expandiam em torno; fazia a ligação entre Minas e Rio e, por fim, tinha o rio Sorocaba, que era um obstáculo aos que vinham chegando, o que facilitava a ação fiscal.
Ao chegarem a Sorocaba, para ser comercializados, os muares eram levados para a invernada – pastagem para descanso e engorda -, pois haviam perdido muito peso na longa jornada entre o sul e o sudeste. Aos muares vendidos na feira denominava-se “xucros”. Era necessário amansá-los para que se tornassem animais para transporte de carga ou sela, quando então passavam a valer o triplo do preço.
A estrada de Sorocaba até o Viamão mostrou economicamente o Brasil. Os muares representavam dinheiro. Todos eram beneficiados com a passagem das tropas. Homens enriqueceram e modestos pousos tornaram-se animadas vilas e povoados. Em torno das feiras, paralelamente ao comércio dos animais, outras atividades foram se desenvolvendo. Surgiram os artesãos, seleiros, funileiros e ferreiros – atividades especializadas na produção de materiais utilizados pelos tropeiros. Botequins e pequenas lojas também foram abertos. Era enorme a procura por artigos de ouro – jóias e adereços -, e prata – artigos para montaria – estribos, esporas e afins e, principalmente, por aquelas que se tornaram conhecidas como as famosas facas de Sorocaba, utilizadas pelos tropeiros.
Foi a partir desse município que as tropas foram traçando caminhos que hoje são as principais rodovias do parís, com especial atenção ao Vale do Paraíba, que separa a Serra da Mantiqueira da Serra do Mar.
“Para o atento observados, as cidades do Vale não se distanciam entre si mais que 24 km (medidos em léguas, onde cada légua equivalia a 6 km), o que resultava em um dia de viagem com a tropa.”
Passagem obrigatória para as Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e portos litorâneos, o vale se destacou como região promissora para o trabalho tropeiro. E, da mesma Sorocaba, tropeiros atingiram os sertões de Goiás-Velho, as minas de Cuiabá, os “caminhos” de Porecatu, Araxá, Amanhece, Cascalho Rico, atingindo a Serra da Canastra e toda a bacia do rio São Francisco.
Toda essa região entre serras propiciou o desenvolvimento do transporte de muares, das tropas e, por séculos, entre os ciclos da cana, do ouro e do café, deu origem ao surgimento de trilhas, rotas, pousos, ranchos e conseqüentemente, das cidades. O aparecimento dos pousos e dos ranchos confundem-se com o nascimento das igrejas. Tão logo eram erguidos casas e comércio, a capela também despontava. O sertão estava sendo ligado – definitiva, social e economicamente ao litoral. O declínio da feira em Sorocaba deu-se na década de 1820, devido à concorrência do gado muar agora também criado em Minas Gerais e em menor escala em Mato Grosso e Goiás e, principalmente, ao surto de febre amarela na cidade. O comércio de tropas foi então transferido para Itapetininga e muitos criatórios de muares já estavam sendo implantados na região sudeste.
Muitos ranchos de tropas transformaram-se nos mercados municipais, ainda hoje encontrados em quase todas as cidades brasileiras, onde se percebe forte influência da arquitetura ibérica.
A excessiva exploração das minas de ouro, obviamente fez com que as jazidas fossem se esgotando e o garimpo apresentou sinais de pouca rentabilidade.
Ao final de 1700 já não era possível encontrar ouro em abundância, mas o cultivo do café já começava a despontar, principalmente no vale do Paraíba. A criação de muares deu um grande salto e conheceu então o seu apogeu.
Pelas Serra da Mantiqueira o tropeiro levava o café para as Minas Gerais – de Lorena ao sul de Minas, de Monte Verde a Aparecida. Pela Serra do Mar e da Bocaina, seguia para o litoral fazendo com que a riqueza do novo ciclo abastecesse as cidades, chegasse aos portos no litoral e pudesse seguir para Portugal. De Cunha a Paraty, de Taubaté a Ubatuba, de São José do Barreiro a Mambucaba, de São José dos Campos a São Sebastião.
As principais rotas usadas para ligar São Paulo e Minas ao Rio de Janeiro eram o caminho velho: Minas Gerais – Guaratinguetá – Paraty, e o caminho novo: Lorena – Fazenda Santa Cruz. As cidades do Vale do Paraíba despontaram. Silveiras, Cunha, São José do Barreiro, Areias, Lagoinha, São Luís do Paraitinga, Bananal, Lorena, Roseira, Aparecida, Guaratinguetá, Taubaté, Jacareí, Queluz.
(“Os Caminhos usados eram tão íngremes e tão difíceis os seus desfiladeiros, que a serra que divide o alto e o médio Vale do Paraíba recebeu a denominação de Serra do Quebra-Cangalha. O nome refletia o esforço para vencer a geografia local que, não raro, rompia as cangalhas, armações em madeira ou ferro que sustentava a carga distribuindo o peso para ambos os lados.”)
Velhos e novos caminhos. Os mesmo corajosos e incansáveis homens. Os tropeiros, mais uma vez, faziam escoar a nova produção econômica do País – o café. Mas não só isso: levava-se também batata, trazia-se madeira, suínos, bovinos, feijão, milho, sal, arroz…
Levavam sua cultura por onde quer que passassem; aprendiam e ensinavam. Geravam riquezas, difundiam hábitos e costumes. Faziam florescer cidades a partir de ranchos de tropas.
Os caminhos estavam abertos pelo ciclo do ouro, as tropas experientes e os escravos, à disposição. A cafeicultura expandiu-se. No princípio como arbustos medicinais, e pouco tempo depois como a maior fonte de riqueza da região; “o maior fenômeno agrícola do século”. Avançou pelo Vale do Paraíba, atingindo em meados do século XIX a província de São Paulo.
Surgiram os Barões do Café e com eles grandes transformações na sociedade. As casas residenciais saíram das fazendas para as cidades. Aprimorou-se a decoração – cópia da francesa; vieram os teatros, os saraus, as requintadas festas. Mudaram-se os costumes, refinou-se a educação.
Foram também os Barões que trouxeram com seus investimentos a estrada de ferro. Esta aproximou Vale e Corte, mas também trouxe a decadência dos portos no litoral com a inauguração do transporte ferroviário, que ligou os principais municípios paulistas ao porto de Santos entre 1867 e 1872, e a estagnação de outras tantas cidades do Vale, tendo em vista sua distância dos trilhos.
As mulas ainda se faziam necessárias tanto dentro das grandes fazendas, no trabalho árduo dos colonos, como para o transporte de cargas até as ferrovias, que por vezes eram muito distantes.
A queda do café iniciou-se e com ela alguns povoados extinguiram-se. Era o final do século XIX e início do século XX.
As décadas de 20 e 30 do novo século trouxeram consigo o crescente desenvolvimento de grandes centros como a capital de São Paulo, Ribeirão Preto, entre outras cidades interioranas, tendo como pano de fundo o avanço e a expansão das ferrovias e das estradas. Entretanto, ainda em 1940, estados como Minas Gerais, Bahia e Mato Grosso ainda dependiam das mulas para fazer girar sua economia.
O tropeirismo mostrava sinais de declínio e ia sendo absorvido, pouco a pouco, por outras formas de transporte, primeiramente com o advento dos trens e a melhoria das condições de navegação e, depois nos anos 50, com a chegada dos caminhões e tratores.
Chegam as ferrovias. Chegam os automóveis. Vão-se os muares e os tropeiros. O legado há de se perpetuar através dos séculos. As lembranças sempre estarão presentes, principalmente quando a “prosa” estiver boa e o café saboroso.

São Paulo Caminhos da Colonização
Viagens de Tropeiros entre Serras
Autor: Professor Ocílio José Azevedo Ferraz
Trecho retirado da página 19 à 28

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